CHAVISMO E BRIZOLISMO – DEPENDÊNCIA OU EMANCIPAÇÃO SOCIAL?

CHAVISMO E BRIZOLISMO – DEPENDÊNCIA OU EMANCIPAÇÃO SOCIAL? – uma homenagem ao dia do trabalhador

Wallace dos Santos de Moraes[1]

Para que os brasileiros melhor entendam o significado do chavismo na Venezuela, requer que façamos algumas comparações com alguns políticos do Brasil, com as devidas ressalvas.

A Venezuela de 1998, quando Hugo Chávez ganha as eleições, se parece muito com a situação política brasileira de 1989. Em ambas as situações há fortes disputas político-ideológicas acerca de projetos para o país. Neste ano, no Brasil, tínhamos principalmente três projetos; um foi o vencedor, de Fernando Collor de Mello, representando o neoliberalismo.

No outro polo, tínhamos dois candidatos da esquerda: um era do PT de Lula, com forte base nos segmentos organizados dos trabalhadores do campo e da cidade, fundado, sobretudo, em pequenas e médias organizações com orientações reformistas e socialistas. Em resumo, o PT apresentava-se com certa similaridade aos partidos social-democratas europeus, baseado no apoio do trabalho organizado.

Outra representação da esquerda estava na candidatura de Leonel Brizola, do PDT. Diferente daquela, o candidato, tal como Chávez, era mais forte do que o partido e não estava amparado em movimentos sociais organizados nos moldes clássicos europeus, mas em movimentos de bairros populares, favelas e trabalhadores informais. A base social de ambos era formada pelos mais pobres. No caso de Brizola, principalmente de dois estados: Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro – onde fora governador. As candidaturas eram sustentadasfortemente pelo carisma político.

Brizola e Chávez não tinham grande apoio intelectual, nem na Academia brasileira, nem nos grandes meios de comunicação. Também não tinham apoio dos sindicatos tradicionais de trabalhadores.

Seus discursos continham grande teor nacionalista e socialista; simultaneamente, atacaram os grandes meios de comunicação, o imperialismo dos EUA e a exploração das elites predatórias. Todas as suas ações giraram em torno de seus personalismos. Surgiram, portanto, o brizolismo e o chavismo.

Suas políticas, enquanto governador dos supracitados estados, no caso de Brizola, e como presidente da Venezuela, no caso de Chávez, foram muito sedutoras para os pobres. Fez grandioso investimento em educação e políticas sociais.Ambos foram os políticos que mais construíram escolas nosdois países. Não obstante, tiveram atritos constantes com os sindicatos dos trabalhadores em educação e, ao mesmo tempo, não hesitaram em reprimir os movimentos sociais mais radicalizados e anticapitalistas.

A elite brasileira, em particular, a carioca, detestava Brizola. Por outro lado, era idolatrado nos lugares com maior concentração de trabalhadores de baixa renda. Na Baixada Fluminense era quase um rei. O equivalente aconteceu com Chávez. Ídolo nas favelas de Caracas e odiado nos bairros ricos.

Mas o reinado de Brizola se desgastou. Os índices de violência aumentaram nas ruas, todavia no plano fictício da televisão, claramente anti-brizolista, chegou a patamares insuportáveis, parecendo que o Rio de Janeiro vivia uma verdadeira guerra civil. O curioso foi que logo após a saída do político do PDT do cargo de governador a guerra civil praticamente acabou na divulgação da grande mídia, retomando apenas com um de seus afilhados políticos, conhecido como Antony Garotinho.

A argumentação dos monopólios da comunicação e da direita fascista para a causa da violência pautava-se na crítica à proibição de Brizola de não deixar a polícia subir o morro atirando e arrombando as casas e barracos. Sem contar os parcos investimentos na chamada segurança pública. Uma clara preocupação liberal, segundo a qual se deve investir maciçamente em segurança para manter a ordem do capital e quase nada em educação, saúde, enfim, em políticas sociais.

Chávez percorreu o mesmo trajeto de Brizola praticamente tomando as mesmas medidas que o ex-governador do Rio de Janeiro. Até a justificativa das críticas é parecida.Atualmente, nos canais privados de televisão da Venezuela, o governo é atacado em função da violência urbana. Quem assiste a televisão tem a impressão de estar em um país em guerra civil.

Sem embargo, todas as medidas pró-trabalhadores tomadas por esses governantes foram insuficientes para garantir àqueles a liberdade com igualdade. Esses governos indubitavelmente são diferentes da maioria dos seus colegas de “profissão”. Não se pode compará-los com Margareth Thatcher por exemplo. Seria uma irresponsabilidade do analista. No entanto, como todo governante, a sua própria existência impede a plena realização da independência dos que são governados e, portanto, dependentes.

Voltemos à comparação.

Permitam-nos agora uma dedução hipotética: pensamos que, caso Brizola tivesse ganho as eleições de 1989, tudo indica que as semelhanças teriamsido maiores com o governo de Chávez na Venezuela: fortes ataques retóricos aos EUA, aos grandes meios de comunicação, talvez tivesse cassado a concessão da Rede Globo de Televisão, tivesse investido em políticas sociais e criado novas estatais e nacionalizado algumas empresas estrangeiras. Também teria investido na televisão pública. Por fim, tudo indica que desagradaria ao grande Capital, aos grandes sindicatos, a maioria dos intelectuais, e, talvez, também tivesse sofrido um golpe militar.

Podemos destacar duas diferenças entre os dois: a primeiraé a origem militar de Chávez; a segunda, a referência mítica salvadora e inspiradora utilizada. Brizola evocava Getúlio Vargas; Chávez, Simon Bolívar. Entretanto, ambos faziam devoções aos seus símbolos, quase que religiosamente.

O brizolismo acabou no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, restando ainda pouquíssimas lembranças saudosas de algumas camadas menos favorecidas. Os políticos subsequentes, tanto no Rio de Janeiro, quanto no Brasil, fizeram de tudo para alcançar tal objetivo.

A partir de uma análise histórica, podemos dizer que o brizolismo se mostrou frágil, porque não construiu, como não poderia,a emancipação popular; muito ao contrário, a dependência de seus seguidores foi a tônica. Seu governo não fomentou a independência popular do Estado e dos patrões. Não se estabeleceu a autonomia, com a posse daquilo que se produz, tampouco o autogoverno. Daí a sua fragilidade e a consequente pouca durabilidade. Será esse o destino do chavismo na Venezuela? A parca vitória de Maduro parece apontar para isso, mais rápido do que imaginávamos, porém só a história poderá dizer com toda certeza.

As elites detestam esses tipos de governos. Logo os chamam de populistas, ditadores etc. O ideal para elas é a implementação de uma democracia minimalista, cuja tônica é a total exclusão da participação popular, sem protestos, sem passeatas, sem reivindicações, resumindo-se ao voto de tempos em tempos. Esses políticos tentam uma ligação direta com os pobres, chamando-os, quando necessário, para as ruas. De acordo com os abastados, os recursos do Estado devem somente servi-los, ajudando-os quando quebram ou precisam de socorro financeiro para ampliar seus negócios. Esse historicamente foi o papel majoritário exercido pelo Estado.

Por outro lado, os pobres,quando desorganizados, ficam dependentes de alguns governantes que lhes garantam um mínimo de sobrevivência. Somada ao fato de os trabalhadores serem obrigados a vender sua força de trabalho para sobrevivência. Estas subordinações constituem em seu conjunto na pior dependência de todas. Por mais generoso e dotado de boa intenção esteja o governo, ele, para sua própria sobrevivência, não poderá garantir a emancipação dos trabalhadores.

Com efeito, o maior ensinamento que essas experiências nos trazem é a necessidade de o povo organizar-se sem depender de “messias, senhores, patrões, chefes supremos”.[2]

 

 


[1]Prof. do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

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